sábado, 5 de abril de 2014

Sustos

Há tantos sustos na vida.
A sombra no corredor.
A travagem repentina.
O descontrolo de estar apaixonado.
O bebé que caiu.
Um estrondo.
Há tantos sustos na vida....
Porque é que o futuro tinha de ser um deles?

sábado, 15 de março de 2014

Amor em estados

Enquanto o vidro da minha janela reflete a luz do sol, eu sei-me a terra.
E diante de mim migram pássaros, diante de mim migram amores... faz tanto tempo que se foi.
O meu amor em estado físico.
Olho o mar e pergunto-me onde estarás no meio da imensidão e sei-te presente. Sempre tão grande demais para mim. Sempre arrebatadoramente gigante para mim.
Olho a terra e pergunto-me onde estarás no meio da pequenez e sei-te ausente. Sempre tão exaustivamente longe de mim. Sempre tão inalcansavelmente infinito em mim.
E diante de mim mudam árvores, diante de mim mudam pessoas... faz tão pouco tempo que ficou.
O meu amor em estado de espírito.
Enquanto o vidro da minha janela reflete o brilho da lua, eu sei-me a mar te.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Mais um cocó no passeio

Praxes

Olá, pessoas (a ler com a voz do Bruno Nogueira quando ironicamente nos cumprimenta no Tubo de Ensaio).
Como boa portuguesa não podia deixar de criticar os outros e fazer exactamente o mesmo, por isso, vim cá cagar a minha sentença... ah, não é isso que andamos todos a fazer? Achei que mais um cocó no passeio não faria mal a ninguém.
Estou seriamente irritada com o jornalismo português, que explora os assuntos até andarmos todos a vomitar a mesma notícia... a sério, já chega.
Aposto que já adivinharam!
Vamos lá falar só mais um bocadinho sobre praxes e a tragédia do Meco.
Não vou especular sobre a causa do acidente... porque eu, tal como provavelmente todas as pessoas neste mundo a não ser o João Gouveia, não sei o que é que aconteceu... também não vou divagar, pelas mesmas razões, sobre a culpa ou inocência do rapaz que viu partir sete amigos.
Mas uma coisa a mim parece-me óbvia: já o Descartes provou que somos seres pensantes e mesmo que as praxes tenham rituais que possam ser a causa desta tragédia, esta podia perfeitamente ser evitada.
Falo do alto da minha vida não universitária e da experiência alheia, claro, mas a mim parece-me que a praxe seja como tudo na vida: há limites. E não há necessidade de julgar a praxe em si, mas sim as pessoas desprovidas de inteligência que, por vezes, praxam. E se estas pessoas desprovidas de inteligência chegam a "cargos de chefia", a culpa não é da praxe, mas sim desta sociedade que abençoa a estupidez.
Não concordo com as coisas menos limpas (física e psicologicamente) que por lá se fazem, mas não nego que há outras tantas coisas que podem ser divertidas e muito úteis, tal como conhecer as pessoas que podem marcar a nossa vida académica do início ao fim. A suposta ligação entre padrinhos/madrinhas e afilhados e a passagem de conhecimento que daí provém é das coisas que faz mais sentido na minha cabeça num capítulo da vida que assusta todos os jovens. A facilidade com que todas as pessoas do curso se podem relacionar é um alívio nesta sociedade em que as idades impõem barreiras difíceis de superar.
Há praxes bem feitas e há praxes mal feitas. Praxar é bom, tal como cozinhar é bom, desde que não se pegue fogo à cozinha porque se decide não usar o cérebro e deixar uma coisa ao lume tempo a mais.
Acho bem que se investigue o caso do Meco, aliás, é impensável que não o façam, tendo em conta o sofrimento das famílias envolvidas. É impensável, também, culpar a praxe. Culpem quem praxa, mas não a praxe. Culpem hábitos, mas não a praxe. Porque daqui a dois anos eu quero chegar à faculdade e ter a felicidade de conhecer pessoas boas (e provavelmente más também, claro), saber distinguir bons hábitos de maus hábitos e dar umas boas gargalhadas. Quero ter a oportunidade de ajudar da mesma maneira que for ajudada.
Por isso, mais uma vez, digo: há maneira de se fazer justiça sem culpar a praxe, mas sim os maus hábitos. E, ainda mais importante, caso a culpa seja realmente dos maus hábitos, há maneira de se fazer justiça melhorando a praxe, se melhorarmos quem praxa.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mana Joana

Olá mana,

Desculpa só dizer todas as coisas que vou dizer agora.
Quero escrever-te isto enquanto ainda tenho o teu perfume presente no meu nariz. Podia ter-te dito pessoalmente, já que acabei de sair de ao pé de ti, mas tenho um nó tão grande na garganta, que se tornou impossível.
Um dos meus maiores medos era que isto acontecesse. Não exactamente isto, mas todas as consequências que daqui podem sair. Desde que ganhei noção de que as pessoas se afastam, me perguntei como é que iríamos ser quando fossemos todos grandes. A minha relação e da mana Lu contigo e com o mano Pedro. Continuaria igual? Mais forte, talvez? Estas eram as esperanças. Iríamos chegar a um ponto em que perderíamos contacto? Em que pensaria menos vezes do que diria "sabem, a mãe tinha uns grandes amigos quando era pequena, o tio Pedro e a tia Joana, eram a minha segunda família. Mas a vida é assim, cada um seguiu para seu lado"? Este era o terror.
Tenho visto as coisas pela positiva: já viste o tamanho do universo? O que é que é a distância daqui ao Dubai? Já viste o meu amor por ti? O que é que é a distância daqui ao Dubai?
Tantas maneiras de falarmos e de nos vermos... Não há-de ser assim tão complicado.
Mas depois tenho medo por ti, porque imagino o que vai nesse teu coraçãozinho! E estás a aguentar-te tão bem, tão forte, mana! E quero relembrar-te que não deixas nada para trás, cada coisinha que aqui fica, levas tudo no coração (até mesmo aquela camisola que não coube na mala)... e há um mundo tão grande à tua frente, tantas memórias para criares!
Não vou ficar aqui a contar momentos, foram tantos. Todos especiais, a sério, mesmo que não se repare na altura. São quase 17 anos, maninha... já estás a sentir-te velha? E mesmo que ultimamente tenhamos andado mais distantes do que suposto, apesar de termos apenas um lance de escadas e uma agenda atarefada e preguiçosa a separar-nos, era saber que estávamos ali que nos consolava e nos deixava com o rabo colado no sofá.
Estou com o coração de irmã apertado e só de pensar como estará o teu, o meu bate um bocadinho mais fraco. Mas sabes, isto passa. E vais gostar tanto daquilo, que isto ainda passa mais rápido... às duas!
Mas também já sabes, se não gostares, o mano vai-te buscar!!
E só queria que percebesses que podia ficar aqui uma eternidade a falar sobre o meu amor por ti e isso não chegava. Aliás, as pessoas até têm uma certa dificuldade em perceber esta nossa relação, mas nós entendemos. És minha mana e eu ADORO-TE TANTO que rebento (lembrei-me agora de uma piada que só te posso dizer depois, imagino que saibas do que falo).
Só te quero feliz e sei que vais ser, tenho um feeling. Desejo-te toda a sorte e essas mariquices todas. Desculpa lá qualquer coisinha e obrigada por tudo tudo tudo. Depois vou lá visitar-te!
"Boa viagem e muito bem!"
ADORO-TE ADORO-TE ADORO-TE ADORO-TE ADORO-TE.

Mana mais nova















MANAAAA, NÃO TE ESQUEÇAS DE VOLTAR.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O Artista

As manhãs espelhavam-se incertas e em cada reflexo um desespero.
Vivia-se estupidamente naquela casa, começando pelo facto de viver nunca ser estúpido.
As inspirações surgiam-lhe em horas cegas, trazendo artes inconcebíveis. Frustrações.
Raio do artista, só pensa quando não deve.
Tropeçava a cada degrau que subia e culpava o destino. Não sabia ele que eram as suas pernas gastas? Não sabia ele que os deuses não existiam e os fados ouviam-se só nas casas de Portugal?
Artista sabe tudo, só gostava de não saber.
Dizia ele que melhor era a utopia, escondendo-se em cada sonho, evitando a realidade como um louco. São era ele, o único. São era ele, que conhecia os dois mundos e preferiu a fantasia.
Artista esconde um pensamento no chapéu e um lápis no bolso, para desenhar só mais uma nuvem sobre a própria cabeça. A arte não sai da felicidade.
As madrugadas reflectiam-se incertas e em cada espelho um desespero.
Raio do artista, só ama quem não deve.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Sociedade vertiginosa

As vertigens desta sociedade matam-me. Quando eu subo grandes alturas, sei que a náusea que sinto não é minha.
Este não subir com medo da queda mata-me. Esta não felicidade com medo da tristeza destrói-me.
Este mundo não luta com medo de perder. E gritam aos que escalam montanhas: 'Quanto mais alto, maior é a queda'.
Prefiro morrer feliz, nem que a minha felicidade tenha durado dez segundos, do que morrer triste, morrer apática, morrer me(r)drosa.
Prefiro morrer na batalha, do que ouvir os tristes inválidos gozarem da coragem dos outros.
Prefiro escalar a montanha, viver no cume.
Cair a meio.
Cair à chegada.
Voltar a subir.
Morrer de vez. Tentado.
Porque se algum dia não lutar, matem-me vocês então, que eu não sou pessoa de ser infeliz esperando.
E à medida que cresço junto dos que escalam tudo o que é alto e sobrevivem caindo e levantado-se, aprendo que só sinto a vertigem alheia se eu própria mo permitir. E a sociedade vertiginosa dá-me raiva suficiente para escalar com fé, cravar os pés na terra e a lança nas barreiras que a minha inimiga criou na mente dos que contra mim lutam, libertando-os.
Escalo na esperança de que esta sociedade vertiginosa um dia arrume o preconceito e suba ao esplendor da altura, sem sequer pensar na queda.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Um passarinho no coração

Era uma vez uma menina feliz que tinha um passarinho no coração.
O seu passarinho era artista.
Nas aulas de arte, a menina desenhava pessoas, mas a professora não gostava dos seus trabalhos, porque as pessoas que a menina desenhava eram desproporcionais.
O que a professora não percebia era que o pai tinha a cabeça demasiado grande porque era muito inteligente, a avó uma grande barriga para caber lá todo o seu coração e a mãe uma boca gigante porque era muito feliz.
A menina ficava aborrecida e passeava sozinha na escola à procura de alguém que achasse "normal", para o poder desenhar. Um dia, encontrou o rapaz perfeito.
O passarinho que tinha no coração começou a bater as asas tão rápido, que a menina teve medo que ele voasse do seu corpo. O passarinho tinha ficado contente porque encontrou ali a razão da sua arte. E sempre que via o menino, a menina e o seu passarinho riam e ficavam felizes.
O tempo passou, e a menina percebeu que o menino não tinha o coração tão grande como a avó, nem era tão inteligente como o pai e nunca ficava tão feliz como a mãe.
Então, a menina deixou de gostar do menino, mas o seu passarinho ainda voava lá dentro cada vez que o via.
A professora começou a gostar dos seus trabalhos porque o passarinho só desenhava o menino. Sempre o mesmo, com todas as proporções corretas.
O seu passarinho estava preso numa gaiola sem chave porque o que a professora achava bom eram as proporções do menino, que não era muito inteligente, nem muito simpático, nem muito feliz. E nem a inteligência do pai, nem o coração da avó, nem a felicidade da mãe o podiam salvar.
A menina andava sempre triste, porque gostava mais das pessoas que tinham uma cabeça, ou uma barriga ou uma boca grande e queria voltar a desenhá-las como antes.
Mas o seu passarinho nunca deixou de desenhar o menino e a menina sabia que ele estava preso para sempre numa gaiola sem chave.